abr 202012
 
Cesar Romao -

Em entrevista exclusiva ao CLUB, César Romão um doss maiores nomes do País na atualidade nos fala de três temas: Empresas, Motivação e Futuro.

I.                  Empresas

Club : Nos últimos anos nossa economia vem se destacando nos noticiários com crescentes números. Canteiros de obras se estendem em avenidas de Norte a Sul. Na prática existem fatores que a nosso ver colocam em xeque: As contratações e um crescimento organizado de vários setores.

Porque tantos profissionais estão optando em fazer concursos públicos ao invés de optar na economia privada?

César Romão: Temos um DNA de uma colonização que conquistou pela facilidade, troca de favores e pela lei do menor esforço. Há um mito que ronda o funcionalismo público: “lá estou garantido”. As pessoas querem mais garantias do que emprego ou trabalho desafiador. No Brasil a necessidade da colocação de pessoas para servir a interesses partidários dentro do funcionalismo público é imensa. Note quantos escândalos ao longo dos anos com o tema: “funcionários fantasmas”, isto não acontece na empresa privada. Evidente que grande parte dos cargos públicos, é de extrema importância, assim como necessitam de pessoal altamente capacitado e os concursos são necessários para tornar viável uma boa avaliação dos aprovados. Não há riscos no setor público, mas há muitos riscos no setor privado, isto causa instabilidade e insegurança, fatores determinantes numa escolha de carreira.

Club: Nossas empresas (grande maioria) não têm plano de carreira e muitas delas (familiar) não se interessam por treinar seus talentos. Ainda existe um valor conservador na gestão de seus empresários. Esse caminho é seguro, qual seria a proposta?

César Romão: Com a expansão da atuação dos Sindicatos, criou-se a visão “empresarial paternalista”, por culpa das administrações organizacionais do passado, que tinham uma visão do colaborador apenas como “mão de obra especializada”. Muitas empresas não estão preparadas para realizar suas próprias estratégias de permanência no mercado, quanto mais planos de carreiras para colaboradores. Uma empresa tem de ser fonte de conhecimento e apoio à expansão do colaborador num todo. Nem sempre um plano de carreira oferecido é aquele que trará resultados esperados a quem o desfruta. Estamos num país campeão de pessoas que ainda estouram seu cheque especial, compram o que não precisam, para pagar com o que não têm, só para mostrar para quem não gosta. Conheço muitos executivos que reclamam que sua empresa não tem plano de carreira, como se sua vida dependesse disto, mas ele compra duas vezes ao ano passagem para os EUA e gasta além de seus limites. Plano de carreira deveria ser matéria de banco de universidade e dentro das empresas um item em constante discussão e aperfeiçoamento. Para muitas empresas, plano de carreira ainda é o canário na mina de carvão, o canário vai à frente, se ele morrer os homens não continuam, é sinal que lá na frente tem gás. A vida bate onde a gente chuta, e durante muitas carreiras as pessoas chutam coisas muitos importantes, as quais vão precisar delas mais tarde. A empresa deve se preparar para fazer um coaching de carreira para o colaborador desde seu ingresso até seu afastamento por qualquer motivo. Cuidar do preparo das pessoas para enfrentar desafios é melhor que cuidar das pessoas.

Club: No Setor Atacadista há um “tour over” gigantesco e alguns empresários preferem optar por trabalhar nas regiões Norte, Centroeste ou Nordeste.  Afinal, qual a maior dificuldade a ser enfrentada na região que mais emprega no País (Sudeste) e qual a caminho a seguir?

César Romão: Regiões onde a demanda é imensa, a concorrência também é imensa. Ela causa dois efeitos: a fuga para onde o consumo não é tão intenso, exigindo um trabalho mediano nas vendas; ou um trabalho de criatividade estratégica que permita estar à frente dos concorrentes e também a conquista do mercado. A concorrência atualmente está cada vez mais aprimorada e muitas vezes querem mais e faz mais do que se pode imaginar. A zona de conforto tem causado o efeito “evasão” de território. Acredito que não há no momento um país onde a concorrência é tão intensa internamente como na China. Dizem até que não há mais o que se fabricar por lá. Mas acredito que sempre irá surgir algum produto ou serviço que o cliente irá necessitar e mesmo que ainda não tenha pensado nele, só depois que o conheceu, percebe o quanto ele será importante para seu negócio. Os botões eram apenas adornos nas roupas, a casa do botão foi inventada muito depois do botão, com a finalidade de fechar melhor as roupas, até então às roupas eram enfiadas ou amarradas. As empresas precisam inventar a casa deste botão que é a concorrência, fazendo melhor e servindo melhor a cada momento.

II.               Motivação

Club: Em recente pesquisa constatou-se que mais de 70% das pessoas estão insatisfeitas com seu trabalho ou apenas trabalham por necessidade primária. Outro dado alarmante é saber que grande parte de seus executivos ou proprietários não optam por motivar seus talentos, achando desnecessário ou não o fazendo por razões de valores.

Podemos associar essa “onda de insatisfação” à falta de estrutura das empresas, ou de seus empresários, em não apresentar um plano sólido de carreira. Nossos gestores não estão preparados para mudanças?

César Romão: Motivação é uma potência e toda potência precisa de controle. As pessoas estão motivadas, mas sem estratégias, possuem potência, mas não têm controle sobre esta potência. Mais que um plano sólido de carreira, as pessoas precisam aprender a extrair inteligência e não idéias de seus cérebros. A era da pedra não acabou por falta de pedra, terminou porque os mesopotâmios 3.500 a.C descobriram o cobre. Mudanças sempre ocorreram e sempre vão ocorrer. Hoje estamos na era do Silício, amanhã um mineral que permita ainda mais avanço tecnológico pode ser descoberto ou criado e tudo que conhecemos em termos do que achamos o máximo em evolução vai ficar no passado. Não se pensava que um dia algo venceria as válvulas nos rádios e aparelhos de televisão. Na verdade as pessoas estão mesmo muito centradas em suas certezas, não é o caso de não estarem preparadas para mudança, elas até aceitam e convivem com as mudanças, mas sofre por perderem suas certezas, eis ai a dificuldade de tornar-se adaptável num universo em reconfiguração permanente, o sentimentalismo e saudosismo bate mais alto.

Club: Profissionais jovens ou maduros sonham com a grande virada em suas vidas. Qual o caminho a trilhar?

César Romão: Não existe um caminho, o segredo está na escolha do destino. Os caminhos atualmente são tão momentâneos que podemos até considerá-los ineficientes, eles são necessários, mas o destino tem de ser o objetivo. Não há nada na vida que possamos executar sem desenvolvermos competências para isto. Os jovens chamados hoje de “geração Y”, estão cometendo um grande equivoco, o de se acharem acima da média executiva, eles pensam que vão cortar a árvore sem afiar o machado só porque “alguém” disse que ele faz parte da “geração Y”. Agora já estão descartando a “Y” com a teoria da “geração Z”. Não é uma nomenclatura que faz a diferença que causa uma grande virada na vida, muito pelo contrario, este tipo de intitulação estimula o ego, o maior inimigo de uma busca para o desenvolvimento humano. Pior do que não ser, é pensar que é. Recebo em meus cursos muitos jovens que já sofrem de problemas emocionais que antigamente, executivos levavam anos para desenvolvê-los e estes jovens desenvolveram em poucos anos. Por serem homologados como “geração Y”, pensam que podem pular fases de execução, pular fases de aprendizados e o mais triste, pular fases de existência. O caminho a trilhar é o do desenvolvimento de competências, respeito ao próximo e gerar resultados positivos sem destruir nada em sua própria vida e da empresa.

III.           Futuro Empresarial

Club: Há uma expectativa generalizada quando a palavra é futuro. Num passado próximo indústrias e distribuição elaborarão planejamentos visando um período relativamente controlável. Não contavam com a velocidade da informatização, muito menos com crises econômicas no mundo.

Nossa indústria está aparelhada para competir com mercados externos sem o risco das demissões em massa?

César Romão: O Brasil é um país mágico, não conheço nenhum outro país, dos 30 países onde tenho livros atualmente com tanta habilidade de adaptação a crises e desafios como o Brasil. Aqui temos um dos mais altos índices de corrupção e desvio de verbas públicas, mas mesmo assim tudo parece prosperar para o desenvolvimento econômico de uma nação consternada e ainda disposta a dar o melhor de si. A demissão foi uma fórmula encontrada em tempos anteriores para pressionar o governo e o mercado a ceder em exigências industriais, nunca foi algo compatível realmente com uma crise. Se voltar no tempo vai notar que as empresas que mais demitiram foram as que mais cresceram seu parque industrial e seus lucros. Demissão não é sinal de crise, é sinal de que as empresas querem mudar algo, como não podem fazer greve, demitem e causam pânico no mercado. Logo em seguida, aumentam seus preços, engordam seus lucros e novamente voltam a contratar. O que mais atrapalha o Brasil a competir com os mercados externos, ainda são nossa carga tributária e uma política econômica mais voltada para pequenos grupos do que para a maior parte das empresas brasileiras. Querem cobrar tudo de todos, muito de todos e não disponibilizam linhas de crédito em volume para amparar o desenvolvimento tecnológico de nossas empresas. No Brasil empresa que tiver de concorrer cai na linha do mito, de que precisa baixar a qualidade. Atualmente entram produtos da China no Brasil e todos os tipos e modelos, a qualidade chinesa é imensamente menor que a nossa, mas o brasileiro prefere pagar barato, usar pouco e comprar mais vezes, na ilusão que está economizando. Note como nossas empresas automobilísticas estão passando apertadas com a concorrência dos carros chineses e coreanos. O que a propaganda de muitos deles não mostra é a desvalorização do valor da compra é a imensa dificuldade da exorbitante manutenção. Mas estes processos fazem parte de um livre mercado que não é tão livre assim no Brasil em razão de uma política econômica e tributaria que cobra muito do pouco, quando deveria cobrar pouco do muito.

 Club: Nossos empresários estão preparados para conter além de crises externas, fatores internos como falta de treinamento capacitado, falta de gestores, tour over, etc.?

César Romão: Nossos empresários e seus RHs ainda vêem treinamento e capacitação como despesas. Há 28 anos realizei um trabalho de capacitação que foi notícia no mundo e referencia no Brasil até hoje, a história pode ser lida em meu livro ROTA DOS VENCEDEORES, Editora Academia. Outro ponto é que todo treinamento tem como meta transformar a pessoas em um agente que aumente a lucratividade de maneira instantânea, como se as pessoas fossem um pozinho mágico que misturado à uma hora de treinamento pudessem diluir e transformarem sem vitamina primordial. As empresas não querem lideres, quem pessoas que façam as outras darem lucro. As empresas não querem gestores, querem alguém que consiga aumentar sua margem de lucro. O primeiro corte nos orçamentos não é no marketing, é no RH. Muitas empresas que não treinam, exigem que o colaborador venha treinado ou desenvolva por sua conta uma capacitação. O cidadão é um talento, mas se faltar para fazer uma prova na faculdade terá seu domingo descontado. Tem muita purpurina ainda nesta estória de treinamento, muita coisa que é só para cumprir tabela de algumas exigências burocráticas organizacionais. No papel fica tudo ajustado, mas na pratica fica tudo arrumado numa nuvem de fumaça.

Club: Qual seria a sua sugestão para o setor de distribuição que hoje tem o maior número de evasão de valores (vendedores, supervisores, gerentes, compradores)?

César Romão: É necessário preparar as pessoas para transformarem esforço em resultado. Uma carreira não envolve somente o serviço, o produto ou a empresa. A visão sistêmica do todo é fundamental. As empresas não se respeitam muito, às vezes possuem grandes talentos em suas mãos, e ao invés de prepará-los ainda mais, resolvem cobrir oferta de salário e retirar um profissional de outra empresa. Grande parte destes profissionais é muito imediatista e acabam aceitando a transferência de empresa. Conseguir reter talentos é um grande desafio para as empresas e para isto, elas precisam aprender muito mais sobre “gente” e não sobre produtos.

Club: Como podemos entender:

- O que é futuro?

- Espiritualidade é essencial para nosso desenvolvimento?

César Romão: É importante pensar no futuro pela razão de que lá é que estaremos vivendo nosso amanhã. O futuro precisa ser construído ele não é um destino já definido. Somente é incerto, quando não estamos aptos a direcioná-lo rumo aos nossos objetivos. O futuro é quem nos dirá quem somos realmente. Quanto à espiritualidade, volto no tempo em 1990 quando ainda este tema nem existia dentro das organizações e era praticamente proibido falar sobre isto, a coisa era mais ou menos assim: “estamos aqui para trabalhar e não para nos espiritualizar, isto fazemos fora do trabalho”. Nesta época em 1990 lancei o primeiro livro sobre espiritualidade no trabalho e no desenvolvimento humano, um verdadeiro desafio para colocá-lo no mercado, imagine então falar deste assunto dentro das palestras e treinamentos in company, eu era praticamente proibido de tocar no assunto. O livro tinha a recomendação de OG Mandino – seu título é: A Semente de Deus – Editora Academia – atingiu a marca de 500 mil exemplares vendidos em 1995, atualmente está editado em 30 países, inclusive em Russo. É o tema que mais me solicitam hoje nas palestras. Para que o leitor desta entrevista possa compreender melhor a importância da espiritualidade na vida pessoal, familiar e profissional, permita-me sugerir a leitura deste livro.

 Mensagem

Pedimos que nos deixasse uma mensagem aberta a todos os nossos leitores, empresários, gerentes, supervisores e demais órgãos que diariamente nos visitam pela internet.

César Romão: Foi um imenso prazer poder trocar estas palavras com este público tão especial. A vida sempre nos dá mais do mesmo, é necessário avaliarmos qual o tipo de mesmo que estamos criando diariamente. Temos duas escolhas apenas: a que nos leva onde queremos ir e a que nos leva onde jamais gostaríamos de estar, irá triunfar aquela que alimentarmos com mais humildade, sabedoria, fé e competência.

 

CESAR ROMÃO

ESCRITOR E CONFERENCISTA

www.cesarromao.com.br



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